quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Reportagem multimídia


O mercado editorial brasileiro vem passando por muitas transformações nos últimos anos. Leitores digitais – como Kindle e Kobo -, chegada da Amazon no Brasil, o boom dos livros para colorir e, agora, os chamados autores-blogueiros. Dos cinco livros mais vendidos no país essa semana, segundo o publishnews, três são de jovens influentes na internet.


 

Isabela Freitas é dona de um blog que fala de relacionamentos e já lançou dois livros sobre o tema. Christian Figueiredo contabiliza quase dois milhões assinantes em seu canal no Youtube e também está no seu segundo livro sobre o universo adolescente. Com um dos livros mais vendidos da Bienal do Livro no Rio de Janeiro, Kéfera reuniu centenas de jovens na feira – fãs do canal dela no Youtube, o 5inco Minutos, que conta com quase seis milhões de inscritos. O sucesso na web reflete diretamente nas vendas e o mercado começou a prestar atenção nesses novos formadores de opinião.

A XVII Bienal Internacional do Livro, que aconteceu entre os dias 3 e 13 de setembro no Rio, resolveu apostar nesse segmento e a presença de youtubers, blogueiros e autores queridos por adolescentes fez da feira um evento declaradamente jovem – eles foram 56% do público. A organização investiu na relação entre autor e fã, construída fortemente na internet, e em espaços criados chamados Maracanã e Copacabana, escritores como Collen Hoover, Jeff Kinney, Eduardo Spohr, entre outros, deram 19,5 mil autógrafos.

Mas não foram só os eventos literários que viram na internet um caminho para sobreviver às crises: as editoras também apostaram nisso. Páginas no Facebook, parceria com blogs, vídeo-resenhas, press kits de lançamentos - vale tudo para atrair o leitor online. O diretor de Marketing e Eventos do Grupo Editorial Record, Bruno Zolotar, acredita que cada nicho de leitores exige ações diferenciadas:

– Para cada público e título existe uma estratégia e táticas. Não adianta fazer jornal para o público que fica o dia inteiro na internet, nem internet para o público que gosta de mídia impressa. A internet 2.0 possibilitou uma maior interação com o público e principalmente com a Galera e a Verus usamos este canal. O Facebook, por ser a mais popular plataforma do tipo no país, com mais de 80 milhões de usuários, é a que mais usamos e na qual mais investimos – a editora acumula 698 mil curtidas na sua página na rede social.

O mercado editorial brasileiro, ainda muito dependente dos livros acadêmicos comprados pelo governo, sofreu alguns baques significativos nos últimos anos, como a chegada da Amazon ao país. Maior loja online do mundo e muito forte no segmento de livros e e-books, a Amazon, com seus preços muito abaixo do mercado e distribuição ampla, chegou ao Brasil em agosto de 2014 e acirrou ainda mais o mercado – livros como Fama&Anonimato, de Gay Talese, custam quase R$ 15 mais barato na Amazon do que em grandes redes brasileiras. O Kindle, leitor digital da marca, passou a ser vendido no país e a rede de livrarias Saraiva, no mesmo ano, lançou um leitor próprio, o Lev, não tão bem sucedido.

A questão do preço de capa chegou a ser debatida no Senado em junho deste ano. O projeto de lei 49/2015, da senadora Fátima Bezerra (PT-RN), que institui a Política Nacional do Livro, é apoiado amplamente por editores e livrarias. A proposta busca definir um teto máximo para descontos nos livros e uma regulamentação dos preços de forma geral – o que beneficia pequenas livrarias em detrimento das grandes redes.

Atualmente, os livros para colorir compõe um forte braço de sustentação do mercado editorial brasileiro. Só em 2015 eles renderem R$ 25 milhões e o livro ‘antiestresse’ Jardim Secreto, da Editora Sextante, vendeu mais de 695 mil cópias - foi o mais vendido do ano, seguido de Floresta Encantada da mesma editora.


Outra saída utilizada pelas editoras para manter-se de pé é a recolocação de livros clássicos no mercado apostando no design das capas e no marketing direto. De acordo com a Gerente de Comunicação e Marketing da Zahar, Isabela Santiago, a estratégia vem mostrando resultados:

– A coleção Clássicos Zahar conta hoje com 48 títulos, em edição comentada e ilustrada. São sempre versões integrais da obra, anotadas e com traduções caprichadas. Muitas dessas edições contam também com ilustrações raras, imagens originais de época ou especialmente pesquisadas para essas publicações. Em seguida ao lançamento das edições comentadas, lançamos uma versão Bolso de Luxo. Essa edição contém o mesmo texto integral, a mesma qualidade e capricho editoriais a preços muito acessíveis. Tudo isso encontrou um público muito jovem e leitor, tanto nas redes sociais onde diversos blogs, vlogs e canais de vídeo resenham os livros e compartilham suas críticas, como nas livrarias. Já vendemos cerca de 750mil exemplares e na Bienal do Livro de São Paulo, em 2014, e agora, 2015, foi a primeira vez que a Zahar teve um estande próprio na Bienal do Rio, e os Clássicos Zahar representaram 50% das vendas.

O blog conversou com alunos da PUC-Rio, com idade entre 20 e 22 anos, e suas respostas comprovaram que os clássicos ainda estão muito presentes nas estantes dos jovens.

O Grupo Editorial Record também investiu em design e, em 2014, relançou a obra completa do escritor colombiano Gabriel García Márquez – dessa vez, com novas capas e projeto gráfico mais moderno.


O Brasil tem o nono maior mercado editorial do mundo, com cerca de 500 editoras ativas e eventos literários que movimentam milhões, como a Bienal Internacional do Livro de São Paulo – que em 2012 teve rendimento de R$ 22,4 milhões -, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), e outros.

O mercado tem capacidade de absorver os títulos lançados todo mês, mas o consumidor está mais exigente, conectado e em busca de preços acessíveis. Cabe as editoras brasileiras se adaptarem aos novos tipos de demanda e buscar as estratégias eficazes de conquistar novos – e velhos - leitores.


Marina Ferreira

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